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segunda-feira, 4 de julho de 2011

VERDADES E MENTIRAS SOBRE RAUL SEIXAS



Agradecimentos: Flaveus Van Neutralis

Qual a ligação entre Raul Seixas e o escritor Paulo Coelho?

Raul e Paulo foram parceiros na composição de alguns dos maiores sucessos de Raul Seixas como Sociedade Alternativa, Gita, Há Dez Mil Anos Atrás, Canto Para Minha Morte, entre outros.
Membros de sociedades anteriores (Raul da Grã Ordem Kavernista e Paulo da Sociedade da Besta do Apocalipse) fundaram a Sociedade Alternativa baseada nos pensamentos de Aleister Crowley (ver tópico a seguir). Em comum tinham grande interesse por assuntos esotéricos.

Quem foi Aleister Crowley?

Aleister Crowley foi um filósofo Inglês do século 19, considerado por muitos um bruxo e satanista. Seu pensamento e pregação se resumiam basicamente no conteúdo da obra chamada Livro da Lei e na doutrina conhecida por Thelema (palavra grega que significa vontade) e que pode ser resumida em "Faz o que quiseres que tudo deve ser da lei. Todo homem é um indivíduo único e tem direito a viver como quiser".
Os princípios hedonistas de Crowley, com a pregação do aproveitamento dos prazeres terrenos, incluindo sexo e drogas, foram base para todas as doutrinas satanistas que se seguiram, embora Crowley não tenha de maneira clara em sua obra se declarado satanista, sendo mais apenas um anti-cristão, tendo tomado para si próprio a denominação de "Número 666".
Por ser uma figura controversa Aleister Crowley despertou muito interesse entre artistas de rock. É Aleister Crowley o sujeito da música Mr Crowley de Ozzy Osbourne. O disco Seventh Son Of a Seventh Son do Iron Maiden possui várias citações a trechos da obra de Aleister Crowley. Um dos mais famosos estudiosos da obra de Crowley foi Jimmy Page, guitarrista do Led Zeppelin. Além de adquirir manuscritos e objetos pessoais de Crowley Page chegou a comprar a mansão do bruxo às margens do Lago Ness onde Crowley teoricamente faria seus rituais. Aleister Crowley aparece entre os personagens da capa do disco Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band dos Beatles.
No rock do Brasil a maior personalidade ligada ao pensamento de Crowley foi Raul Seixas. A música Sociedade Alternativa, entre outras, são exemplos disto. Ao final de Sociedade Alternativa Raul Seixas grita para o público: "O Número 666 chama-se Aleister Crowley. A lei de Thelema... esta é a nossa lei e a alegria do mundo. Faz o que tu queres, há de ser tudo da lei. Todo homem e toda mulher é uma estrela." Tratam-se de trechos da obra de Crowley.

O que é a Sociedade Alternativa?

Foi um grupo formado por Raul Seixas e Paulo Coelho baseado nos princípios de Aleister Crowley. Editaram e distribuiram manifestos chegando a iniciar a organização de uma comunidade alternativa, Cidade das Estrelas (ou Cidade da Luz), onde cada um teria o direito de viver como bem entendesse.
A Sociedade Alternativa foi fundada a partir da fusão do grupo Grã Ordem Kavernista de Raul Seixas com a Sociedade Secreta da Besta do Apocalipse da qual participava Paulo Coelho. Em 1973 participando de um congresso mundial de ordens deste tipo a Sociedade Alternativa foi reconhecida.
A letra da música Sociedade Alternativa explica sucintamente a sua filosofia. Cada pessoa é um indivíduo único e especial e deve obedecer apenas a sua vontade, podendo viver como bem entender, "tomar banho de chapeu ou esperar Papai Noel" sem se preocupar com a opinião do sistema. A única lei seria "faz o que tu queres!".
Em plena vigência da ditadura militar o grupo foi considerado subversivo e caçado pelo governo Geisel. Raul, Paulo Coelho e suas respectivas esposas foram deportados para os Estados Unidos.

Raul Seixas era satanista? Teve envolvimento com ocultismo?

Aleister Crowley adotou para si o título de Besta do Apocalipse e Número 666 mais como agressão à sociedade cristã do que como homenagem a qualquer tipo de força demoníaca (lembre-se que a base da doutrina de Thelema é a adoração e satisfação apenas do "eu" e a não-adoração a qualquer tipo de entidade). Vem da adoção destas denominações a maior parte das acusações de satanismo tanto para Raul Seixas e Paulo Coelho quanto para qualquer outro seguidor do pensamento de Crowley. Por outro lado Raul e Paulo estudaram esoterismo e experimentaram muitos rituais (incluindo magia negra). Raul Seixas não veio a comentar com clareza e detalhes sua experiência nestes aspectos. Paulo Coelho posteriormente declarou que não havia gostado das experiências por que passara.
Raul aborda com certa frequência em suas músicas a figura do diabo, muitas vezes de forma simpática como em O Rock do Diabo, mas uma análise mais profunda revela que este diabo é figurativo e representaivo da negação ao pensamento cristão-conservador comum. "Enquanto Freud explica. O diabo fica dandos os toques. Existem dois diabos... um deles é o do toque... o outro é aquele do Exorcista".

O Que é o selo Imprimatur presente em alguns discos?

Trata-se de uma referência ao selo com a ordem de "imprima-se" que a ingreja católica antiga usava para ordenar a publicação e divulgação de documentos. O selo da Sociedade Alternativa traz em seu centro uma adaptação da Cruz Ansat egípcia (o Ankh, que representa entre outras as tiras das sandálias do peregrino que busca algo) com dois pequenos degraus que lhe dão forma de chave (representando também os degraus da iniciação).

O que significa Krig-Ha Bandolo!?

Trata-se do grito de Tarzan indicando que os inimigos estão chegando.

Sobre o que fala Gita?

Gita é baseada no Bhagavad-Gitã, parte do Mahabarata, que seria a "bíblia" da religião hindu de Krishna. No texto um guerreiro, Arjuna, interroga Krishna sobre o seu significado (de Krishna). Krishna responde com frases como: "Entre as estrelas sou a lua... entre os animais selvagens sou o leão... dos peixes eu sou o tubarão.... de todas as criações eu sou o início e também o fim e também o meio... das letras eu sou a letra A... eu sou a morte que tudo devora e o gerador de todas as coisas ainda por existir... sou o jogo de azar dos enganadores..." em que obviamente se basearam os versos de Gita.

O que é o Novo Aeon?

Um aeon é uma era, ou 2.148 anos, tempo necessário para que o eixo da terra complete uma volta completa (360 graus) em seu movimento de pião. A cada vez que isso ocorre geram-se mudanças na humanidade. O Novo Aeon é a nova era que está por vir, a Era de Aquário, que deverá ter início. Liricamente o Novo Aeon representa mudança (assim como o Velho Aeon representa o que está para ser superado).

Qual o significado de algumas outras letras?

As Aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor - Raul critica o status-quo e fala sobre a necessidade de fazer uma "aliança estratégica" com o sistema (o Monstro Sist) para poder enfrentá-lo. "Quando se quer entrar num buraco de rato de rato você tem que transar".
Trem das Sete - ver Novo Aeon explicada anteriormente.
Paranóia - Fala sobre masturbação e o medo de estar cometendo um pecado. "Minha mãe me disse a tempo atrás aonde você for Deus vai atrás... Deus vê sempre tudo o que você faz... Vacilava sempre a ficar nu lá no chuveiro com vergonha... com vergonha de saber que tinha alguém ali comigo vendo fazer tudo o que se faz dentro de um banheiro".
Love Is Magick - Aleister Crowley entitulava a sua magia de Magick para não ser confundida com a magia comum (magic).
O Carimbador Maluco - Parte do musical infantil Pluct Plact Zumm da Rede Globo e motivo de muitas críticas a Raul que teria se vendido ao sistema com uma música imbecil. Os mais inteligentes percebem a pesada crítica à burocracia do governo que teima em selar, registrar, carimbar, avaliar, rotular, adiando e atrapalhando todo tipo de atividade. É também uma referência ao texto do anarquista Proudon que diz "Ser governado é ser a cada operação... notado, registrado, recenseado, tarifado, selado, medido, cotado, avaliado, patenteado, autrizado, rotulado".
A Lei - É uma das referências mais claras a Aleister Crowley na obra de Raul. O Livro da Lei é a principal obra de Crowley e a maior parte da letra são trechos deste livro.
Cowboy Fora Da Lei - Sobre iconoclastia, e o peso da responsabilidade de ser um ícone, bem como os riscos de vida do mesmo."Mamãe não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito, e alguém possa querer me assassinar...(...)..."Papai não quero provar nada, eu já servi a pátria amada, e todo mundo cobra minha luz...minha luz...ó coitado, foi tão cedo, deus me livre eu tenho medo, morrer dependurado numa cruz..."
Cambalache - Uma crítica óbvia, direta e revoltada à todos os males que assolam o mundo criados pelo ser humano desde longa data, além da falta de esperança no futuro. "Que mundo foi e será uma porcaria eu já sei, em 506, e em 2000 também, que sempre houve ladrões maquiavélicos safados, contentes e frustrados, valores, confusão..."
Paranóia II - Sobre o desespero e agonia o qual uma mulher pode levar um homem. Sobre o trecho "o que eu procuros você escondeu na barriga, não quer me entregar" pode ser uma referência a drogas que a esposa de Raul teria escondido dele.
Ouro de Tolo - Crítica severa à sociedade hipócrita, capitalista, materialista e cheia de si,a qual Raul fazia questão de ridicularizar. Nota-se grande semelhança com o estilo folk de Bob Dylan.
Medo da chuva - além de ser uma das mais belas e poéticas músicas de Raul, trata da escravidão que pode ser uma vida a dois quando se tem uma esposa possessiva e ditadora. "é pena, que vc pense que sou seu escravo...dizendo que sou seu marido e não posso partir..."
Quando Acabar o Maluco Sou Eu - sobre como o mundo pode considerar normal as pessoas se matarem, fazerm tramóias políticas, traírem a si mesmas, guerrearem, culminarem no apocalipse, aceitarem a censura e considerar insanidade ser simplesmente excêntrico e afrontar o sistema.

O SIGNIFICADO DA MÚSICA "GITA" DE RAUL SEIXAS

por diego sônego

Perguntando para algumas pessoas sobre o que achavam que Raul dizia com a música “Gita”, notei que cada um dá a sua versão e acredita que a música tenha mesmo só interpretações subjetivas e que não deveria haver uma interpretação mais correta que a outra. Mas, mesmo assim, essas interpretações formam um consenso; o ponto comum é que muitos disseram que a música tem a ver com deus.

A história que se conta sobre a letra da música “Gita” é que Raul lia um livro de Bhagavad Gita, um guru do hinduísmo, religião indiana. O próprio nome da música é uma alusão clara a esse fato. Raul então adormeceu com a idéia na cabeça e quando acordou começou a escrever a letra.

Prestando atenção na letra é fácil perceber do que ela fala.
A parte declamada no começo é o ponto chave para entender o que vem depois. Começa a música: “Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando, foi justamente num sonho que ele me falou: ...”. Assim, o resto que é cantado, não seria o Raul que dizendo algo a alguém, e sim, ouvindo algo que alguém falava, confirma a idéia de que foi depois de um sonho que a música foi escrita e que esse sonho foi motivado pela leitura de parte da doutrina de Bhagavad Gita. Sendo assim Raul em vez de falar, ouve: “Às vezes você me pergunta, por que é que eu sou tão calado, não falo de amor quase nada, nem fico sorrindo ao teu lado...”

A doutrina da religião hinduísta é baseada no panteísmo. O panteísmo é a crença em que Deus está em todas coisas da natureza, não está em um só lugar e não é um determinado ser ou pessoa; deus para os hinduístas é a própria natureza. É isso o que diz a música toda: “Eu sou a luz das estrelas, Eu sou a cor do luar, Eu sou as coisas da vida, Eu sou o medo de amar”; “Por que você me pergunta, perguntas não vão lhe mostrar que Eu sou feito da terra, do fogo, da água e do ar...”. 
Pensando por este ângulo dá pra compreender facilmente os versos: “você me tem todo dia, mas não sabe se é bom ou ruim, mas saiba que eu estou em você, mas você não está em mim...”, isso porque deus, para os panteístas, está em tudo a que o homem tem acesso, inclusive dentro do próprio homem, pois o deus está no homem, porque o homem é parte de deus, mas o homem não está em deus, porque deus vai muito além do que o homem é.
Ao escrever isso, o significado de “Gita” me parecia cada vez mais óbvio, o que me levou a entrar um pouco em outro assunto e chegar a conclusão que muitas outras coisas devem ser tão simples de se entender, mas no Brasil, como em boa parte do mundo, a tradição judaico-cristã é imposta, embora haja liberdade de religião garantida pelo Art. 5° da Constituição, ainda há muito preconceito contra quem não seja católico ou protestante (evangélicos, espíritas, etc). Como se a crença de negros, índios e outros povos marginalizados fosse inferior. Aliás ateus, agnósticos, céticos e pagãos também tem a sua liberdade de crença protegida pela lei, pois se há liberdade de religião, para ser livre mesmo, tem que incluir a liberdade de não-religião.
Como poderia ser uma crença menor que a outra, se todos têm tantas provas de seus deuses quanto os cristãos? Ou seja: nenhuma! E todos, ainda assim, têm direito de ter fé, que consiste justamente em acreditar em algo sem precisar de comprovação, e se estiver precisando de comprovar, já está fraca a sua fé, pois já virou ciência.
Finalizando: mesmo que sua religião seja outra que ache o hinduísmo pareça uma sub-cultura religiosa, a música “Gita” de Raul Seixas fala de deus segundo o Panteísmo, e não o deus que está na doutrina que você conhece, mas tão real quanto todos são para e conforme as suas respectivas crenças. Discorde disso com uma condição: responder quem mais seria “o início, o fim e o meio” se não deus?